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De: Internauta 1- Para: Silvia - Data: 19 Jul. 2006
Olá Silvia, bom dia. Eu li sobre vc na net. Queria me tratar com vc, sou gago desde criança, tenho 29 anos eu ja fiz terapia aqui, mas a fono nao atende mais na minha cidade. Minha cidade é pequena e não tem fono. Atualmente to fazendo um curso que encontrei na net, tenho que faaalar beeem deeevaaagaar. Vc acha que com isso posso melhorar pelo menos um pouco? Faz pouco tempo que to fazendo ainda nao deu resultado! Eu não consigo falar assim com as pessoas, eu me descontrolo!! rsrs. Aí não sai nada!! Moro no sul de Minas, Passos. Conhece? Quanto fica para eu me tratar com vc? Obrigado.

Silvia responde - Data: 21 Ju.l 2006
Olá Internauta 1. O que posso te dizer é que tudo que você fizer para não gaguejar só fará piorar a gagueira. A vida da gagueira está ligada a tentativa de escondê-la e essa tentativa existe porque tua imagem de falante ficou marcada com o estigma de ser gago. Você é um falante normal como você mesmo pode constatar quando fala sozinho. Que milagre acontece nessa hora. O milagre de que tua imagem de falante não está mais em jogo e então você se deixa falar espontânea e livremente como qualquer uma e nessa condição, como qualquer um você também pode fluir. Sendo assim, falar devagar só vai funcionar se você estiver acreditando no poder de falar. Se for para esconder a gagueira, as tensões sempre aparecem. Bom, é só uma dica conforme você pediu, fazer tratamento por internet não dá. Não vejo como poderia tratar você porque estou em São Paulo e você em Minas. Também não sei indicar uma fono aí onde você esta. Especialistas em tratamento de gagueira são muito raras e uma fono sem essa especialização não saberá fazer o tratamento. O melhor que posso dizer para te ajudar é que aceitar a gagueira, permití-la, parar de lutar contra ela e, ao mesmo tempo, sentir tua capacidade de falar que já existe em você são os caminhos para sair da gagueira.


De: Internauta 2- Para: Silvia - Data: 27 Jul. 2006
Olá Silvia, desculpe eu tomar seu tempo... É que no momento eu só tenho você, para me iluminar. Eu achei muito interessante sua dica. Quer dizer que eu na verdade, posso falar com as pessoas sem gaguejar?! Isso está na minha mente, que sou gago!? Se eu "esquecer" da gagueira eu posso melhorar?! Você pode me ajudar me dando, mais dicas como você faz? Eu estou me sentindo muito feliz, em saber que posso falar como as outras pessoas! Como é que posso começar a "esquecer" da minha imagem de mal falante?! Você acha que os exercícios, que a fono me passou não resolvem? Eu sinto que meu problema é na respiração! Eu não sei como, eu travo a respiração na ora que estou falando, aí isso é o bloqueio? Eu sinto que se eu não travasse o ar, ai pumm!!!! O milagre aconteceu!! Eu to livre!!!! Obrigado por responder meu e-mail, você é muito gentil.

Silvia responde - Data: 26 Jul 2006
Olá Internauta 2, sim, é como você diz. A gagueira está na mente na forma de imagem estigmatizada de falante. Essa imagem se manifesta pela certeza que você tem de quer vai gaguejar, pela certeza que você tem de que a fala que você ainda não falou, vai ter gagueira.
Como sei disso? Sei porque as pessoas não sabem como falam, ou seja, sabemos falar, mas não sabemos como o fazemos. É como escrever ou andar (ressalvadas as devidas proporções de complexidades de cada atividade), sabemos fazê-lo, mas não sabemos como o fazemos. Nessas condições, seria impossível saber por antecedência se vamos errar na escrita ou se vamos tropeçar ao andar. Sendo assim, o problema não é, exatamente, gaguejar e sim a imagem de falante que se organiza na mente. Ela influencia o modo de falar.
Assim, gaguejar é conseqüência, é efeito dessa certeza que você tem de que irá gaguejar. A ela se segue a tentativa de controlar o falar para, justamente, não gaguejar, porque gaguejar parece feio. Mas, se falamos sem saber como o fazemos, isso significa que falar é uma atividade espontânea/ automática. Acontece que quando tentamos controlar atividades que, na realidade, são automáticas, criamos problemas na atividade.
No teu caso, como você mesmo explicou, você trava a respiração. Veja com a coisa tem uma lógica incrível se você a olhar do ponto de vista que estou mostrando: quando você tem que falar, isso logo traz a imagem de que vai gaguejar. Mas, ao mesmo tempo, você não quer mostrar-se gago. Isso acontece na mente. E no corpo o que acontece? Teu diafragma sobe para empurrar a corrente de ar dos pulmões para cima, à fim de produzir voz e fala, mas, ao mesmo tempo, a imagem da gagueira te leva travar as cordas vocais, numa tentativa (inconsciente) de controlar a fala. Essa é a resposta do corpo, para tentar evitar a temida imagem de você gaguejando.
Mas assim que você, inconscientemente, fecha as cordas vocais, a corrente de ar não pode passar e a voz, fica travada, não sai. Aí você se sente bloqueado e fica com a impressão de que sabia mesmo que ia gaguejar. Isso alimenta a imagem de ser gago, a qual alimenta o hábito de fechar as cordas e, assim, você fica preso num círculo vicioso.
Se você entendeu minha explicação, a partir de agora já sabe 'como' e 'porque' tua respiração trava. Isso me permite dizer que teu problema não é na respiração. O que acontece com tua respiração não se deve a um problema específico com ela. Deve-se ao que você inconscientemente faz com ela durante a fala, por querer controlar a gagueira que você imagina vai aparecer. Problema de respiração é coisa grave, que afeta o funcionamento do organismo como um todo. Se você tivesse algum ele já teria gerado sérios problema no teu dia a dia, em outros momentos que não somente o da fala.
Assim, devagar, podemos desfazer as idéias de senso comum sobre a gagueira e construir uma compreensão do que de fato ocorre no corpo e na mente no momento do gaguejar.
Falando nisso, não dá, como você disse, para "começar a esquecer da minha imagem de mal falante". É interessante que o simples fato de querer esquecer já faz lembrar. Por isso, o caminho tem que diferente. Você deve tomar consciência da presença dessa imagem quando fala e tomar consciência da relação que ela tem com a produção da gagueira.
Isso fará uma incrível diferença em tua vida, porque se você começar a perceber essa relação, sairá da posição de vítima da gagueira e passarà para a posição de pessoa que compreender o próprio funcionamento interno que produz gagueira.
Poderá perceber com que freqüência esse funcionamento acontece, em que condições. Poderá perceber também que há ocasiões em que ele não acontece. Isto é muito importante para você começar a apreciar outras facetas de si.
Acredito que quando você se percebe fluindo, acha estranho e, em seguida acreditar que logo, logo, vai gaguejar. Se é assim, isso mostra o quanto você se habituou a ver-se gago e o quanto não se habitou a ver-se fluente. Então, está na hora de achar estranha essa crença de que logo, logo vai gaguejar e, assim, fortalecer a imagem de si fluente. Para fazer isso, lembre que a fala é automática e deixe-a acontecer.
Chego assim a alguns exercícios que acredito valem a pena de ser feitos. Veja que eles não são exercícios para treinar falar bem. Esses só servem para manter você se sentindo como mal falante.

1- Perceber que você está sentido que vai ter gagueira na fala (esse é o sinal de que você está se sentido mal falante);
2- Estranhar essa sensação lembrando que não sabemos como falamos, logo como você poderia saber que vai gaguejar?
3- Estranhar o medo que você sente ao se perceber fluindo. Porque temer algo que você faz espontaneamente. Que medo é esse?
4- Sinta a fala (os movimento da boca, mandíbula, dentes, língua), quando está bem à vontade para falar e perceba como é tudo tão automático, como, de fato, você não sabe como faz para falar.

Isso fortalecerá a fé na tua imagem de fluente.
Quando falo em sentir a fala me refiro a sentir como neste momento, você pode sentir tuas pernas, teus pés, o contato da roupa com o corpo.
Falar lentamente, como brincadeira voluntária, pode ser um meio para desenvolver a capacidade para sentir a fala e perceber como ela, de fato, é automática, ou seja, como movimentos que vão se sucedendo uns aos outros sem que saibamos como.
Outra estratégia para sentir o automatismo da fala pode ser dublar a fala de alguém. Isso pode ser feito com alguém que fala na TV. Escute atentamente o que o falante diz e trate de fazer os movimentos da fala, ao mesmo tempo que ele(a), só que sem voz.
Para finalizar ficam as seguintes dicas:

1- Tudo que você fazer para tentar falar bem, aumenta a imagem de mal falante e, portanto, aumentará a gagueira.
2- Quanto mais você aceitar a gagueira, menos você gagueja, já que, como expliquei, a gagueira é a tensão que você faz para não gaguejar. Se você aceita de verdade a tensão se desmancha bem mais depressa.
3- Para conseguir aceitar a gagueira é preciso construir uma imagem de bom falante e isso se faz sentido o automático da fala e confiando nesse automatismo.
Espero que toda essa explicação te ajude.

De: Internauta 2 - Para: Silvia - Data: 27 Jul. 2006
Olá! Silvia, tudo bem? Eu gostaria de saber se você pode me ajudar com uma coisa! Quando eu tenho que falar uma palavra, por exemplo: “faca”, ai eu não consigo direito, sai assim: “ffffffaca”, ou “seis”, “ssssseis”. Deu pra entender? Você pode me ajudar com algum exercício? Eu gostei muito do seu site! Abraços.

Silvia responde - Data: 29 Jul. 2006
Olá Internauta 2 - Sim deu para entender. Vou te propor um exercício que considero adequado, mas talvez ele não seja bem o que você espera. Imagino que você espera um exercício que acabe com isso e pronto. Mas se tal exercício fosse possível, se ele existisse, todos os fonoaudiólogos já saberiam dele e estariam usando, da mesma forma como há exercícios de aquecimento da voz que os todos os fonoaudiólogos conhecem.
Mas vamos então ao exercício. Para que ele faça sentido, preciso primeiro analisar com você o fato de que, na verdade, não são todos os "fffff" e todos os "ssss" que saem assim quando você fala. Certo? Vários saem simplesmente "s" e "f", sem o prolongamento. Sendo assim, temos que nos perguntar porque alguns você prolonga e outros não ? O que será que determina isso? É preciso entender, para planejar um exercício que atinja o ponto exato.
Esse jeito prolongado de fazer "fffff" e "ssss" me chama a atenção num aspecto, é que o modo prolongado é, na verdade, mais complexo que o modo sem prolongamento. Experimente fazer dos dois modos ao dizer uma palavra começada com "s" e outra com "f". Preste atenção para sentir a pronuncia e perceba qual é mais difícil. Quando você usa o modo prolongado tua boca já está na posição certa, o som é o certo, só que esse som demora mais do que é usual na fala. E o que será que está se passando na tua mente quando você prolonga? Será que a palavra com o som prolongado não foi antecedida da sensação de que você ia gaguejar? E nos momentos em que todos os sons saem sem prolongamento, que está se passando na tua mente? Haverá diferença? Você também percebe os sons "s" e "f" quando os faz sem prolongar?
O exercício é esse, perceber o que se passa na tua mente quando há o prolongamento.
A experiência me mostrou que esse tipo de pronuncia tem a ver com os momentos em que a pessoa sente que vai gaguejar. Nesses momentos, ela tensiona os músculos da falar para, na verdade, tentar evitar de gaguejar. Só que o que ela consegue com isso é gaguejar.
Uma seqüência mais completa de exercícios para superar a tensão na fala esta descrita na resposta dada ao internauta 1, logo acima.
Abraço.


De: Internauta 3 - Para: Silvia - Data: 30 Jul. 2006
Ola! Silvia, como vai? Eu tava dando uma olhada no seu site, você trabalha seus pacientes com musicoterapia, né? Como que é feito esse trabalho? Será que eu poderia fazer aqui? Eu tenho uma dúvida, comigo acontece uma coisa muito estranha, não sei se é só comigo. Acontece que tem uma determinada pessoa da minha família que eu sou mais gago ainda... será que é só comigo? Por que será que isso acontece? Abraços.

Silvia responde - Data: 29 Jul. 2006
Olá internauta 3. Na verdade eu não trabalho com músicoterapia. Essa é uma área específica de conhecimento para a qual não tenho formação. Eu trabalho com a consciência do movimento ligada ao ato de falar, com o objetivo de desmistificar esse ato, seja no fluir ou no gaguejar.
Para isso, trabalho como os movimentos que a boca faz para falar por meio de vocalizações, de brincadeiras com sons e palavras e do canto. Você precisaria fazer uma sessão comigo para entender melhor esse trabalho. Por e-mail posso comentar que apoiada por minha experiência com yoga uso muito “mantras”, mas também uso canções populares que tem peculiaridades na pronuncia, como a velocidade, com a repetição de certos sons. A canção Kid Cavaquinho de João Bosco exemplifica o 1º caso e a canção Tristes Trópicos de Itamar Assunção, o 2º.
Sobre a pergunta a respeito de gaguejar mais com determinada pessoa da família, comento que isso é bem comum, ou seja, não acontece só com você. Copio a seguir o trecho de um capítulo sobre terapia em grupo, onde justamente expliquei isso. Espero que fique claro para você.
“Assim, por exemplo, tomando o discurso de um fragmento de sessão temos que um participante disse: "não sei, eu vejo que falo bem na rua, com os amigos, mas é só eu entrar em casa e começo a travar" o outro responde: "comigo é bem ao contrário, com as pessoas que estou mais familiarizado, em casa, tudo bem, falo na boa, já com pessoas que estou menos familiarizado ou não conheço, travo total". Essa conversa permite focalizar o peso relativo da imagem de falante em relação à singularidade de cada participante. Para um as pessoas familiares que desde sempre o vêem como gago, parecem despertar o estigma e, assim, na presença delas a fala trava na tentativa de conter/ocultar a gagueira. Para o outro as pessoas com quem já está familiarizado, as que já conhecem sua gagueira, parecem liberá-lo do estigma e as menos familiares é que acendem o perigo de mostrar-se gago. As duas situações permitem mostrar ao grupo que o aparecimento da gagueira está ligado ao espaço discursivo, em uma relação direta com a exterioridade. Permitem mostrar também que, embora as condições exteriores sejam opostas, em ambas o aparecimento de travas para falar está ligado à antecipar e não desejar a gagueira isto é, à imagem estigmatizada de falante.”
Você não respondeu às perguntas que eu te fiz quando você me pediu exercícios para parar de prolongar sons ao falar? Outra pergunta. O que é que vc faz na vida? Abraços.

De: Internauta 4 - Para: Silvia - Data: Nov. 2006
Olá Silvia. Olhei o seu site e achei muito interessante o jeito que você responde as perguntas dos internautas, dando o máximo do seu conhecimento e carinho para eles, por isso, resolvi escrever para você contando o meu problema que é a gagueira. É uma gagueira que se torna mais acentuada nos encontros consonantais PR, TR, FR, BL e palavras que iniciam com QU, como QUALQUER, QUANDO. Sei que é difícil, mas queria saber como resolvo esse problema, já que a maioria dos gagos que já vi na vida gaguejam com qualquer palavra e eu consigo falar bem, mas quando chegam esses tipos de palavras eu gaguejo ao ponto delas não saírem de jeito nenhum, muitas vezes eu penso rapidamente durante a frase e procuro outra palavra sinônima para colocar no lugar.

Silvia responde - Data: Abr. 2007
Olá internauta 5, fico bem contente que você tenha gostado do site e tenha achado interessantes as respostas aos internautas, tendo percebido nelas conhecimento e carinho. Acho difícil resolver o problema que você me coloca por meio de uma simples resposta por e-mail que por sua própria natureza deve ser ágil e curta. Isso que você relata: que a gagueira ficar mais acentuada nos encontros consonantais, na verdade é um ponto central no modo de funcionamento da fala com gagueira. Eu teria que escrever muito para te explicar um bocado de coisa que você não sabe, nem poderia saber, sobre linguagem, sobre funcionamento de discurso e sobre funcionamento subjetivo para, por fim poder te explicar como resolver teu problema. Seria como fazer tratamento por e-mail, só que o que se pode fazer em uma hora de sessão, leva 2, 3 ou até mais horas para elaborado na forma de texto escrito. Algumas respostas aos internautas que já estão no site, contém explicações numa linguagem mais fácil que a dos meus livros e artigos e lendo-as talvez elas sejam de ajuda para você. Para que não fique somente nisso, formulo uma resposta direta e sucinta à tua questão:
1. O falante (todos os falantes do mundo) sabem falar, mas não sabem como falam. Para entender isso vamos lembrar do ato de andar. Você anda, mas você sabe dizer COMO anda? Então, de modo semelhante à ação de andar (que é algo que sabemos fazer, mas não sabemos com o fazemos) a ação de falar também é algo que sabemos fazer mas não sabemos como. Sendo assim, do mesmo modo como confiamos no andar e andamos, também deveríamos confiar no falar para fluir.
2. A pessoa fica gaga, justamente, porque perde a confiança em sua fala. Para entender isso melhor, você pode ler, no site, o texto: Gagueira na Infância, que explica sobre a existência de uma IDEOLOGIA DO BEM FALAR e sobre como, a partir dela, as pessoas rejeitam a disfluência infantil, criando com essa rejeição um trauma na fala da criança, de tal modo que ela passa a ter medo de, simplesmente, deixar sua fala sair, medo porque ela imagina que vai disfluir e, portanto, desagradar.
3. Tendo adquirido um medo de deixar a fala sair, ela passa a construir, em sua mente, estratégias que ela imagina a farão falar sem gaguejar.
4. Uma das principais estratégia que boa parte das pessoa constrói é a de definir o lugar da gagueira, ela acha, ou melhor acredita que sabe em que lugar, em que som ou palavra, a gagueira vai estar. Isso é importante porque localizando ela pode tentar fazer algo para não gaguejar. Trocar a palavra por exemplo.
5. Acontece que tudo isso é um erro logo de saída, porque como disse no item 1, o falante não sabe como fala. Sendo assim, como poderia de fato saber onde vai gaguejar?
6. Mas o falante na situação descrita não sabe nada disso, como você mesmo não sabia, até ler isto neste e-mail. O que ele sabe é que precisa fazer algo para falar sem disfluir, conforme pessoas que lhe são importantes lhe estão exigindo.
7. É essa necessidade de localizar o lugar da gagueira que, no teu caso particular, faz como que você localize e tema os PR, TR, FR, BL e palavras que iniciam com QU, como QUALQUER, QUANDO. É o modo que você criou para controlar a gagueira.
8. Mas esse modo é bem ineficiente, porque justamente quando você localiza esse sons na fala que você iria pronunciar, tuas cordas vocais, sem que você queira ou sequer perceba, reagem fechando-se. Elas se fecham na tentativa inconsciente de segurar, conter, controlar a gagueira que você previu. Mas, no exato momento em que se fecham, a fala se interrompe, se bloqueia e, portanto, se mostra gaga e você sente que não está conseguindo fala e com isso, parece que você, de fato, sabia que ali haveria gagueira. Se você trocar a palavra, tudo bem, a fala sai bem e isso é assim porque, no teu cérebro, todas as outras palavras estão livres da gagueira, não eram elas o alvo da localização. Mas se você pensar bem em tudo isso verá que ao traçar a palavra, você resolveu um problema de fala, falando, o que mostra que de fato você pode falar, apesar das cismas com os sons.
9. Diante disso recomendo duas técnicas para caminhar para fora da gagueira:
9.1. Quando trocar as palavras agregue um NOVO pensamento a essa troca. Um pensamento que ENTENDE e ACEITA que não é possível falar sem gaguejar a palavra que foi antecipada como perigosa. Ao mesmo tempo, ria (por dentro, silenciosamente) por que reconhecer nessa troca tua capacidade de falar, perfeita, mostrando-se na palavra que não foi “capturada” pela antecipação de gagueira.
9.2. Um outro pensamento novo também é útil: Cada vez que você se der conta que está antecipando a gagueira, diga para si mesmo (em pensamente): “estou novamente entrado nesse mecanismo de achar que sei onde está a gagueira”. É um PENSAMENTO de DENÚNCIA de um funcionamento mental que, a partir de agora, você sabe que está errado. Fazendo essa denuncia, e nada mais que isso, simplesmente ele tende a sumir ao longo dos meses.
Não sei quanto isso vai ajudar ou não, porque na verdade seria preciso entrar num processo terapêutico, mas é o que posso compartilhar com você. Comento ainda que o tratamento que aqui descrevi não corresponde ao tratamento mais convencional que propõe controlar a gagueira. Isso, pelo que escrevi aqui e no site, do meu ponto de vista, seria persistir no tipo de funcionamento mental que cria a gagueira. O tratamento que proponho segue uma lógica que pretende liberar a fala, de modo a poder deixar-se falar livremente sem medo da gagueira. Claro que isso não e fácil nem simples porque envolve o corpo a mente e as relações sociais.
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