Qual
a causa da gagueira?
Relações intersubjetivas em
que o padrão de fala de um sujeito é estigmatizado por outro,
gerando condições imaginárias para a constituição de uma imagem
estigmatizada de falante que, uma vez configurada sustenta o que
foi explicitado como essência da gagueira.
Qual a essência da gagueira?
Um estado subjetivo de ansiedade
e/ou medo de produzir fala, freqüentemente acompanhado de antecipação
(e possível visualização) de sons ou palavras que se afiguram
como problemáticas, impronunciáveis.
O que determina a intensidade
e a gravidade/severidade da gagueira?
A freqüência com que o estado
definido como essencial está presente na configuração subjetiva
de uma pessoa nas situações de comunicação, gerando o efeito de
tensionamento em um ou diversos grupos musculares envolvidos com
a produção da fala, materializados
em bloqueios e hesitações e/ou gerando trocas de palavras e/ou
gerando freqüentes silenciamentos.
A gagueira pode ser prevenida?
Sim, a partir da esclarecimento
social sobre o efeito que as relações intersubjetivas estigmatizantes
podem gerar.
Todos os gagos são iguais?
Como pessoas, evidentemente,
não se poderia jamais afirmar que todos são iguais, entretanto,
do ponto de vista do funcionamento subjetivo descrito, encontra-se
uma profunda regularidade entre as pessoas que gaguejam.
A gagueira é um problema emocional?
A gagueira, segundo entendemos,
é conseqüência de um funcionamento subjetivo marcado por uma imagem
de si como mau falante. Por ver-se como um mau falante (um falante
gaguejante) a pessoa tenta controlar sua fluência de fala. Como
a produção de fala é na verdade uma atividade automática, a tentativa
de controlá-la a torna tensa e gera quebras no seu fluxo. Esse
funcionamento subjetivo corresponde à proposta do autor norte
americano Joseph Sheehan: ele que detectou na gagueira um “conflito
de aproximação e fuga”. Em outras palavras, a pessoa quer falar
(aproximação), mas, por ver-se como mau falante, quer controlar
essa fala para fugir da gagueira (fuga). Nesse sentido podemos
dizer que a produção de fala com gagueira envolve um conflito
emocional, mas isso não é a mesma coisa que afirmar que a gagueira
é um problema emocional.

A gagueira tem cura?
Se a gagueira, conforme propomos,
é conseqüência de um funcionamento subjetivo marcado por uma imagem
de mau falante, podemos afirmar que ela sim, ela tem cura. Esta
depende da possibilidade de gerar uma imagem de si como bom falante
e com isso modificar o funcionamento subjetivo. O texto Ressignificar
a Imagem de Falante pode dar uma idéia mais clara desse processo.

Quem
cuida da gagueira:
o fonoaudiólogo ou o psicólogo?
Para ajudar de forma efetiva
a pessoa que gagueja o profissional, seja ele de que área for,
deve ter estudos especializados sobre o problema. Por se tratar
de um problema de fala ele está mais afeito ao campo fonoaudiológico
e ao seu objeto de pesquisa. Nesse campo, atualmente, que vemos
surgir um número crescente de pesquisas ao lado da preocupação
com a formação especializada do fonoaudiólogo. Essa formação especializada
envolve: conhecimentos de biologia, lingüística e psicologia porque
a gagueira é um problema complexo cuja compreensão envolve, no
mínimo, conhecimentos nessas três áreas.
Como
se faz o diagnóstico da gagueira?
Dentro da visão de gagueira
aqui proposta, para o diagnóstico o terapeuta busca identificar
se existe:
1. uma imagem de mau falante constituída;
2. uma imagem de mau falante em constituição;
3. ou uma imagem de mau falante ausente.
Para isso o terapeuta escuta a história do paciente a respeito
de sua fala (suas vivências, seus sentimentos, suas sensações,
suas estratégias de fala) ao mesmo tempo em que observa seu corpo,
sua forma de produzir fala. Quando se trata de crianças quem conta
a história são os pais e o terapeuta observa o modo como os pais
se relacionam com a criança, o modo como a fala se produz entre
pais e criança o corpo da criança e seu modo de produzir fala.

A partir
de que idade os pais devem procurar terapia para a criança que
gagueja?
De acordo com nossa visão a
gagueira ganha a possibilidade de se instalar a partir do momento
em que as pessoas (pais, avós, professores, o próprio falante)
interpretam as disfluências de fala de uma criança como sendo
gagas. É essa interpretação que pode levar a criança a constituir
uma imagem de mau falante e, consequentemente, a tentar controlar
sua fluência, levando-a, assim, ao problema de querer controlar
o automático. Nessas condições, os pais devem procurar um terapeuta
especializado em problemas da fluência tão logo considerem que
a fala da criança tem gagueira. O terapeuta os ajudará a entender
todo o processo biológico e psicológico envolvido na produção
da fala e a entender porque a criança disflui.

No livro "Construção
do Personagem Bom Falante", a senhora fala ligeiramente sobre
benefícios da Ioga Nidra, no tratamento da gagueira. Poderia falar
um pouco mais aqui, para que mais gente tenha tal informação,
sobre esta yoga? Qual a importância dela no trato da gagueira?
Qual a diferença desta para as outras yogas?
Começo pela tua última pergunta:
não se trata de considerar diferenças entre Yoga Nidra e outros
Yogas, visto que Yoga Nidra é uma parte do Yoga em geral que se
refere ao desligamento dos sentidos. Para explicar o que é isso
vamos partir da compreensão de que Yoga é união.
Esse conceito de união pode
ser abordado de diferentes aspectos. Para os fins que aqui são
requeridos, vamos enfocar a união entre corpo e mente (entendendo
mente como sentimentos e pensamentos) por meio da consciência.
Para vivenciar essa união o Ioga Nidrá propõe ao praticante a
conscientização do corpo, parte por parte, descontraindo, profundamente,
cada uma; a conscientização da respiração deixando-a livre, suave
e harmoniosa até que o inspirar e o expirar pareçam um único movimento
contínuo e a conscientização daquilo que se passa na mente, sentimentos
pensamentos e imagens, para não se deixar levar por eles mas sim
permanecer com a mente neutra, vazia (quando permanecer com a
mente vazia não é possível, permanecer com a mente consciente
do rítmo da respiração). Todos os tipos de Ioga trabalham a prática
do Ioga Nidrá.
A importância do Ioga Nidrá
no trato da gagueira pode ser entendida se pensarmos que o falante
que gagueja, marcado por uma imagem estigmatizada, tem um funcionamento
discursivo movido pelo desejo de controlar o fluir de sua fala.
Mas o fluir da fala, de fato, não é passível de controle, ele
decorre do sentido que vai se construindo ao longo do discurso,
de tal modo que uma palavra "puxa" a outra e elas vão, por assim
dizer, escorregando da boca. A produção das palavras é automática
e espontânea, ou seja, sabemos falar, mas não sabemos como o fazemos.
Para realizar o controle desejado, o falante passa então a prever
o lugar em que sua gagueira aparecerá. Geralmente ele não é consciente
de que prevê esse lugar, ele apenas sente que vai gaguejar, sabe
que vai gaguejar, a sensação de que vai gaguejar o persegue.
Por meio da condução de experiências
de fala vividas dentro da prática do Yoga Nidra, ajudo o paciente
a tomar consciência do modo de funcionamento de sua mente na produção
da fala e na produção da gagueira. Ele começa a perceber e a reconhecer
em si os momentos em que se deixa falar livremente sem controlar
e os momentos em que fala antevendo o lugar da gagueira. Isso
lhe permite ver/sentir a intensa articulação entre antever a gagueira
e travar musculaturas (essa articulação tem muito sentido já que
a gagueira é estigmatizada e sua antevisão só poderia levar à
travar a muscular para tentar contê-la).
A continuidade dessa prática
(experiências de fala vividas dentro da prática do Ioga Nidrá)
permite ao paciente deslizar da "prisão mental" formada pela antevisão
da gagueira e da busca de caminhos para "dribra-la" para conectar-se
com o que se passa no seu corpo. Passa a perceber então as musculaturas
que estão travadas e essa percepção lhe permite soltá-las.
O Yoga Nidra é assim uma técnica
que permite trabalhar, na interação terapêutica, com a consciência
da relação corpo / mente tanto na produção de fala com gagueira,
como na produção da fala fluente e, desse modo, ajudar o paciente
a deslocar-se da primeira para a segunda.

A
terapia pode ser aplicada a crianças e adultos?
Sim, a proposta terapêutica se aplica
a crianças e adultos, porque em qualquer caso, se trata sempre
de seguir um caminho que possa devolver à pessoa sua confiança
na capacidade de falar, capacidade que é destruída em relações
de comunicação que interpretam o disfluir como gaguejar (levando
em consideração que gaguejar é um rótulo socialmente estigmatizado
que se agrega à fala), relações de comunicação que não dão ao
falante liberdade para falar do modo que lhe é natural.

Existe diferença entre
o tratamento de crianças e adultos?
Existem muitas diferenças entre o tratamento
dedicado a crianças e o dedicado a adultos, porque o modo de devolver
ou gerar confiança para um adulto não pode ser igual que o para
uma criança. Cada idade exige modos de interação e atividades
bastante diferentes. Além disso, com relação à disfluência infantil
frequentemente trabalho apenas com os pais. Se eles mudam seu
modo de ver a disfluência, se passam a aceita-la, a criança não
construirá uma imagem de mau falante e conseqüentemente não se
construirá a gagueira como um sofrimento. Se a criança já tem
uma imagem de mau falante incrustada em sua subjetividade, costumo
trabalhar conjuntamente os pais e a criança, para que, ao mesmo
tempo, todos compreendam que falar envolve tanto o fluir como
o disfluir, sem medidas prévias de normalidade ou patologia, mas,
em vez disso, sempre fazendo relações com os contextos discursivos
mais fáceis ou mais defíceis para a criança, por razões que são
singulares à essa criança.

Como são as fases de
sua aplicação?
O trabalho que proponho não se explica
em fases de aplicação. O princípio norteador já o enunciei no
acima: "devolver à pessoa sua confiança na capacidade de fala".
Para conseguir isso o terapeuta precisa estar atento ao contexto,
aos discursos que se produzem em cada encontro terapêutico, à
história de vida do paciente que se materializa em seus discursos,
à forma de estabelecer relações de comunicação com o paciente,
à forma de estabelecer relações de comunicação com os pais do
paciente (quando se trata de crianças), à forma como os pais estabelecem
relações com a criança. Tudo isso inspira ao terapeuta, ações
e discursos, que, graças a uma série de conhecimentos sobre lingüística
e psicologia, sobre mente e corpo, é capaz de estabelecer relações
que levam a pessoa a confiar em sua capacidade de falar.
Que papel
desempenha meio ambiente para paciente?
Entendo que aquilo que argumentei até
aqui explica o papel que o meio ambiente desempenha para o paciente,
especialmente, quando comentei a respeito da perda de confiança
na capacidade de falar, gerada em relações de comunicação que
interpretam o disfluir como gaguejar, que por sua vez leva à constituição
de uma imagem de mau falante que está na raiz da gagueira sofrimento.
Quanto tempo
é dedicado à sua aplicação?
Não há tempo indicado para a aplicação
do tratamento. Isso depende da flexibilidade ou rigidez mental
das pessoas envolvidas na situação, mas com adultos, um ano de
tratamento, em média, produz mudanças significativas. Com crianças
que não tem enraizada a imagem de mau falante, frequentemente
um só encontro com seus pais é suficiente. Crianças que tem enraizada
essa imagem, frequentemente, requerem um ano como os adultos.

A partir de
que número de sessões se podem ver mudanças qualitativas no paciente?
O número
de sessões que permite ver mudanças qualitativas, varia de acordo
com o efeito que o discurso do terapeuta e os exercícios que ele
lhe propõem, produzem no paciente. Podem ser contadas semanas
ou meses. Mas sempre ao final de um ano vejo significativas mudanças
qualitativas.