Desde que me formei em fonoaudiologia, em 1974, tive especial
interesse em tratar de pessoas com gagueira. Nesses tratamentos,
chamava-me a atenção o fato de que todas as pessoas que atendia,
sob certas condições (por exemplo: quando falavam para si mesmas;
quando cantavam), também eram fluentes. Considerei esse fato como
sinal de que a competência de falante dessas pessoas, do ponto
de vista biológico, era íntegra e de que a produção de gagueira
estava relacionada ao modo como seu psiquismo funcionava sob determinadas
condições sociais. Esse fator direcionou meus estudos para entender
melhor a manifestação da gagueira e sua possibilidade de tratamento,
ao campo da Psicologia Social.
Nesse campo encontrei conhecimentos capazes de sustentar pesquisas
que relacionassem o funcionamento do organismo e do psiquismo
na produção de fala e de gagueira aos valores, mitos e crenças
que perpassam a sociedade e a cultura. A vivência com meus pacientes
me sugeria que esse conhecimento seria capaz de explicar o surgimento
e o desaparecimento da gagueira em diferentes situações de fala,
e, assim, evoluir na compreensão dos determinantes da fala gaguejada
e de suas possibilidades de tratamento.
Essas
pesquisas têm mostrado que certos valores e crenças que perpassam
as relações de comunicação estabelecidas entre as pessoas, deixam
marcas no funcionamento psíquico e essas marcas têm efeitos no
funcionamento discursivo e no corpo.
A partir da análise do discurso de pessoas que gaguejam, constatei
que esses valores e crenças dizem respeito a uma ideologia de
bem falar. A partir dessa ideologia, que incide no senso comum,
acredita-se que a fluência normal é absoluta, ou seja, que não
contem trechos disfluentes ou gaguejados. Isso favorece reações
de não aceitação de tais trechos, especialmente na fala infantil,
por serem interpretados como problemáticos.
Esse tipo de interpretação pode deixar marcas no funcionamento
discursivo e para compreendê-las, é preciso entender que:
1) a fluência na fala acontece de forma automática e espontânea,
ou seja, o falante sabe falar, mas não sabe como o faz;
2) quando fala, sua atenção está conectada ao sentido daquilo
que está dizendo e esse sentido guia a seqüência de sua fala.
As reações de não aceitação do padrão disfluente de fala tem efeito
no funcionamento discursivo, porque desviam a atenção do falante
do sentido para a forma do dizer e porque o levam a querer controlar
a forma espontânea de falar para ser aceito socialmente. A tentativa
de controlar o espontâneo leva o falante a prever os lugares em
que a gagueira ocorrerá. Antecipar os lugares de ocorrência da
gagueira na fala que ainda não foi falada, dá ao falante a ilusão
de poder controlar a fluência e, desse modo, ele se permite continuar
falando. Com isso, freqüentemente cria truques para “driblar”
a gagueira que havia previsto, como trocar palavras; inspirar
brevemente antes de uma palavra temida, etc. Essa forma de funcionamento
gera rupturas bizarras na fluência, gestos de fala tensos e tensões
no corpo. Isso aumenta ou mantém as reações de não aceitação,
bem como as tentativas de controlar o espontâneo, aprisionando
o falante a essa forma de funcionamento.
Tais condições de funcionamento discursivo por terem seu início
na infância, podem levar o falante a construir uma imagem de mau
falante. A imagem de mau falante constituída na subjetividade
é a marca fundamental do funcionamento psíquico dos falantes gagos
que venho tratando. Sempre que a situação de comunicação os leva
a se preocuparem com sua imagem, antecipam a gagueira e, para
escondê-la, tentam controlar o espontâneo. A conseqüência disso
- como vimos - é ficarem aprisionados a uma fala com gagueira.
Mesmo que os truques funcionem muito bem e “driblem” todas as
gagueira previstas, internamente, sabem que não foram livres para
falar as palavras que queriam. Já quando a situação de comunicação
não lhes trouxer nenhuma preocupação com a imagem de si, não há
antecipação da gagueira e conseqüentemente a fluência tem lugar.
A compreensão desse modo de funcionamento da gagueira sustenta
uma proposta de tratamento apoiada em dois princípios: parar de
tentar o espontâneo e aceitar a gagueira. Se o falante puder aceitar
sua gagueira, cessará o efeito de tentar o espontâneo, os truques
perderão o sentido e desaparecerão as tensões que o corpo apresenta
ao falar.
Para conseguir isso, trabalho em duas vertentes: interação discursiva
e abordagem corporal.
Por meio da interação discursiva entre paciente e terapeuta, trabalha-se
na compreensão da lógica de funcionamento da fala fluente e da
fala com gagueira, para que o paciente encontre as condições para
sair do funcionamento gaguejante. O discurso do paciente sobre
sua gagueira é matéria prima para revelar a ele esse funcionamento.
A auto-observação é a forma de sair dele.
Por meio da abordagem corporal trabalha-se com o paciente a capacidade
de falar sentindo os movimentos da fala e a partir dela:
• a vivência sensorial da efetiva capacidade de falar espontânea
e fluentemente;
• a vivência sensorial dos controles possíveis na fala;
• a capacidade de falar gerando confiança na fala.
Isso permite aceitar a gagueira e desmontar seu modo de funcionamento.
A duração média desse tratamento é de um ano.
Com crianças, quando a avaliação mostra que a imagem de falante
ainda não está constituída, o terapeuta interage com os pais,
com a criança, com a escola e com todas as pessoas importantes
na vida da criança, no sentido de impedir que tal imagem se constitua.
Esse trabalho, frequentemente, pode ser efetivo com uma única
sessão com os pais e a criança. Sempre, entretanto, são feitas
tantas sessões quanto necessárias para que se possa modificar
a forma de interpretar as disfluências infantis.
Resta considerar que a fala com gagueira não acontece somente
sob as condições aqui descritas. Ela também pode decorrer sob
condições estritamente orgânicas, como por exemplo nas assim chamadas
disartria ou taquifemia. Sobre elas poderá incidir a ideologia
de bem falar, levando ao funcionamento de fala aqui descrito.
Nesse e em todos os casos, o tratamento proposto leva o paciente
a sentir e compreender sua efetiva capacidade de falar, que está
limitada por suas condições orgânicas.