É o efeito de uma forma de funcionamento subjetivo singular sobre
a produção da fala.
De
modo geral as respostas a essa questão são dadas a partir de um
raciocínio inspirado na área médica. Essa área, que tem como objetivo
cuidar das doenças do corpo humano, busca sempre descobrir qual
agente dentro do corpo causa esta ou aquela doença para assim
poder controlá-la. Esse raciocínio aplicado à manifestação da
fala com gagueira sustenta as hipóteses que ela se deve a algum
problema no funcionamento neurológico ou decorre de alguma característica
genética peculiar.
O fato é que nem uma nem outra hipótese foram satisfatoriamente
confirmadas até o momento. A isso soma-se o fato de que toda pessoa
que gagueja também não gagueja conforme as condições de fala que
enfrenta, como, por exemplo, quando fala sozinha, fala com animais,
canta.
Esse
fato levou-nos a deixar de lado o raciocínio do tipo causa efeito
e a deixar de procurar no corpo a falha que explique a fala produzida
com gagueira. Em vez disso, passamos a pesquisar o funcionamento
subjetivo e dentro dele o funcionamento da fala para entender
sua possível relação com a produção de fala com gagueira.
O funcionamento subjetivo não nasce pronto com a pessoa.
Ele se constrói ao longo da vida, a partir das relações interpessoais
que se estabelecem na família, na escola e na sociedade em geral,
dentro de uma dada cultura.
Desse modo da cultura cria marcas no funcionamento
subjetivo dos seus membros, de tal modo que todos as pessoas têm
elementos semelhantes na sua subjetividade, tal como o reconhecimento
das autoridades, o conhecimento das regras comuns ao grupo e assim
por diante. Esses aspectos comuns viabilizam a vida em sociedade.
Ao mesmo tempo, cada pessoa constrói sua subjetividade de um modo
singular e único, de acordo com as experiências pessoais que vivencia
e seu modo de sentir as coisas. Os dois aspectos entram em jogo
no funcionamento subjetivo singular de cada pessoa.
Dentro
dos aspectos comuns a todos os membros de uma sociedade podemos
localizar na cultura ocidental uma ideologia do bem falar que
perpassa a mentalidade das pessoas em geral. Essa ideologia leva
as pessoas a acreditarem que a fluência de fala é absoluta, ou
seja, não contém disfluências. Na realidade, entretanto, a fala
normal contém fluências e disfluências. A disfluência aparece
em momentos em que a pessoa não encontra uma palavra para expressar
o que deseja, ou, ao contrário quando duas palavras concorrem
entre si num mesmo momento de emissão; quando o falante não domina
bem o assunto sobre o qual fala; quando o falante está ansioso;
quando está com medo. Estas são algumas das condições associadas
ao aparecimento a disfluência e o que elas mostram é que a disfluência
está relacionada ao que se passa na subjetividade do falante.
A ideologia do bem falar afeta especialmente as crianças
que apresentam muitas disfluências como condição natural ao seu
funcionamento de fala. Como o discurso da criança pequena é bastante
simples e o adulto pode prevê-lo com facilidade é comum que se
focalize nas disfluências e as valorize excessivamente. Inspirado
pela ideologia do bem falar, vê as disfluências como erradas,
inadequadas, indesejáveis, perigosas. Muitos adultos crêem que
as disfluências são o início de uma gagueira e entendem que a
gagueira é um mal.
Quando uma criança fica submetida a uma situação
em que sua fala é considerada má, inadequada; quando percebe que
as disfluências são a parte má, surge em sua subjetividade uma
motivação para ficar tensa ao falar, no mínimo, com as pessoas
que reagem negativamente à sua fala. Com isso suas disfluências
tendem a aumentar e pode surgir esforço muscular para falar. Isso,
evidentemente, faz os adultos entenderem que a gagueira está piorando
e consequentemente eles mantêm ou aumentam seu modo negativo de
reagir às disfluências.
Esse modo de compartilhar a comunicação entre criança
e adulto, leva a criança ao desejo de controlar sua fala de modo
a evitar o aparecimento dos trechos gaguejados e tornar sua fala
aceitável. Além disso, outras crianças também costumam rir ou
imitar as disfluências de seus coetaneos e isso coopera com o
desejo de controlar a fala pela criança que disflui.
O desejo de controlar o fluir da fala é problemático
porque sabemos falar, porém não sabemos como falamos. O fluir
da fala se processa de modo espontâneo e automático. O falante
não sabe como faz para falar e fluir. Quando fala fica no sentido
do seu discurso, no conteúdo do discurso e não na forma. Mas o
desejo de controlar a fala leva-o necessariamente para a forma,
porque somente nela a fala parece oferecer algo para ser controlado,
isto é: a palavra, o som, a letra. Assim, para atender ao desejo
de controlar a fala, o falante se desvia do seu funcionamento
natural de fala e gera um novo modo de funcionamento.
Esse novo funcionamento é problemático porque se processa
a partir da antecipação de gagueira na fala que ainda não foi
falada. A antecipação significa que o falante localiza um suposto
lugar para a gagueira. Essa localização por um lado é necessária,
porque permite ao falante saber para onde dirigir seu esforço
e desse modo ele pode continuar falando Por outro é problemática
porque ao antecipar a gagueira está antecipando aquilo que entendeu
com um mal e isso representa uma ameaça. Diante da ameaça da gagueira
antecipada os músculos da fala se tensionam. Isso produz uma quebra
no fluir da fala, ou seja, uma gagueira. Então parece ao falante
que sua previsão estava certa. Diante dessa situação o falante
pode passar a trocar as palavras temidas por outras que ele acredita
que poderá pronunciar, a fazer movimentos com o corpo para fazer
a fala sair, a dar uma breve inspiração antes de dizer a palavra
temida e muitas outras estratégias sempre com a intenção de soltar,
de liberar a fala que antecipou. E esse modo (tenso) de falar
vai se transformando no seu novo modo automático de falar.
Esse modo de funcionamento de fala é coerente com
a formação de uma imagem estigmatizada de si como falante, já
que o falante não sabe que foi vítima de uma ideologia de bem
falar a partir da qual passou a querer controlar o seu falar.
O falante também não sabe que o fluir é automático e, justamente
porque tentar controla-lo, está gerando tensões excessivas no
seu falar. Ele só sabe que quanto mais tenta falar bem, menos
consegue seu intento e para sua maior perplexidade, justamente
quando não liga para a fala e quando flui mais.
Em síntese, face a ideologia do bem falar presente
no meio social, materializado nas relações de comunicação de uma
criança, gera-se uma imagem estigmatizada de falante que fica
na raiz da tentativa de controlar a fala para falar bem. Se a
imagem permanece na subjetividade esse modo de falar se perpetua
ao longo da vida do falante. Quando a imagem de si é bem importante
para o falante, as tentativas de falar bem aumentam e com isso
a gagueira aumenta. Quando a imagem não é importante para o mesmo
falante ele flui.
Entendemos assim
que a gagueira é produto de uma forma de sofrimento na fala construído
na vida de relação. Esse sofrimento se cria a partir de um funcionamento
subjetivo paradoxal, ou seja, o que o falante faz com o objetivo
de falar bem, é o que o faz falar com gagueira. É nesse sentido
que defendemos que a gagueira é o efeito de uma forma de funcionamento
subjetivo singular sobre a produção de fala.
Como vemos, esta explicação da gagueira revela o quanto ela é
um problema complexo. É uma explicação que articula: elementos
da sociedade (ideologia de bem falar marcando as relações de comunicação),
a elementos da subjetividade (no inconsciente a imagem de mau
falante e no consciente a certeza de falhas na fala somada à tentativa
de falar bem), a elementos no corpo (tensões nos gestos de fala
e no corpo).
Resta complementar que com esta explicação não pretendemos abarcar
a manifestação da gagueira em toda a sua amplitude. Ela se restringe,
especificamente, a todas aquelas pessoas que gaguejam, mas que
sob certas condições de fala (falar sozinho por exemplo) são fluentes.
Existem também gagueiras que são decorrentes de problemas neurológicos
específicos como, por exemplo, a chamada disartria. Nesse caso,
sob qualquer condição a pessoa continua tendo dificuldades com
a mobilidade dos órgãos articulatórios. Essa condição, entretanto,
é favorável à constituição do funcionamento subjetivo aqui descrito,
somando-se assim ao problema neurológico a imagem de mau falante
e decorrente tentativa de falar bem, o que agrava a condição neurológica.